As lentes RGP corneanas (lentes rígidas gás-permeáveis) estão entre as principais opções para reabilitação visual de pacientes com ceratocone.
Por manterem sua forma sobre uma córnea irregular, elas criam uma nova superfície óptica regular e conseguem corrigir distorções que muitas vezes já não são bem compensadas por óculos ou lentes gelatinosas convencionais.
Além da excelente qualidade visual, são lentes pequenas, permeáveis ao oxigênio e com movimentação durante o piscar, características que favorecem a renovação da lágrima e ajudam a preservar a saúde da córnea quando a adaptação é adequada.
Mas a escolha nunca deve ser feita apenas pelo tipo de lente.
Uma boa adaptação precisa reunir três objetivos: qualidade visual, conforto e saúde ocular.
O que são lentes RGP corneanas?
As lentes RGP são feitas de materiais rígidos e permeáveis ao oxigênio.
Diferentemente das lentes gelatinosas, que se moldam ao formato da córnea, a lente rígida mantém sua própria forma e cria uma superfície óptica regular à frente da córnea irregular. A lágrima que fica entre a lente e a córnea preenche parte dessas irregularidades e complementa esse sistema óptico.
É justamente essa combinação que permite às lentes RGP neutralizar grande parte das distorções provocadas pelo ceratocone e proporcionar uma melhora importante da qualidade visual.
Por que as lentes RGP corneanas são tão utilizadas no ceratocone?
Porque conseguem reunir características muito importantes para muitos pacientes:
- excelente qualidade visual;
- pequeno diâmetro e materiais com alta permeabilidade ao oxigênio;
- movimentação durante o piscar, permitindo a troca e renovação da lágrima sob a lente de contato;
- possibilidade de diferentes desenhos e ajustes;
- boa relação entre resultado visual, saúde ocular e custo.
Mas existe um ponto ainda mais importante: uma lente não deve ser considerada boa apenas porque o paciente está enxergando bem com ela.
O oftalmologista precisa avaliar sua centralização, movimentação, relação com a córnea, superfície ocular e como o olho está reagindo ao uso ao longo do tempo.
O objetivo não é simplesmente alcançar uma boa acuidade visual. É conseguir manter uma córnea saudável enquanto o paciente enxerga bem e usa sua lente com conforto.
Testei uma lente rígida e achei desconfortável. Isso significa que não vou me adaptar?
Não.
A córnea é uma das estruturas mais sensíveis do nosso corpo.
Um pequeno cisco que talvez nem fosse percebido sobre a pele pode causar um incômodo enorme quando entra no olho. Por isso, é natural perceber bastante uma lente rígida corneana quando ela é colocada pela primeira vez.
Isso não significa intolerância à lente. Existe um período de adaptação.
Com uma lente corretamente adaptada e um tempo de uso progressivo orientado pelo oftalmologista, o olho e o paciente vão se acostumando à presença da lente, e a sensação inicial tende a diminuir bastante.
Muitos pacientes que inicialmente acreditavam que nunca conseguiriam usar uma lente rígida passam, depois da adaptação, a utilizá-la durante muitas horas com excelente conforto e qualidade visual.
Por isso, colocar uma lente de teste uma única vez e sentir desconforto não é suficiente para concluir que o paciente não consegue usar uma lente RGP corneana.
A verdadeira adaptação é um processo.
Como é feita a adaptação?
A topografia e a tomografia corneana fornecem informações muito importantes sobre o formato e a irregularidade da córnea, mas não determinam sozinhas qual será a lente ideal.
Durante a adaptação, é necessário colocar a lente sobre o olho e observar seu comportamento.
O oftalmologista avalia fatores como:
- centralização;
- movimento da lente durante o piscar;
- relação entre a lente e a córnea;
- qualidade visual;
- conforto;
- características das pálpebras e do piscar;
- presença de alergia, papilas ou olho seco;
- saúde da superfície ocular.
Por isso, duas pessoas com exames aparentemente semelhantes podem precisar de lentes completamente diferentes.
Costumamos dizer que não somos nós que escolhemos a lente para o paciente. São os olhos dele que nos mostram qual é a lente mais adequada.
Uma lente confortável e com boa visão está necessariamente bem adaptada?
Não. Visão e conforto são fundamentais, mas não são suficientes.
Uma lente inadequadamente adaptada pode provocar áreas de pressão excessiva, alterações na superfície da córnea ou outros sinais que o próprio paciente nem sempre percebe.
Por isso, a avaliação da relação entre a lente e a córnea é uma etapa essencial da adaptação.
Além disso, essa relação pode mudar com o tempo. O ceratocone pode se modificar, a superfície ocular pode apresentar alterações e as próprias condições de uso do paciente podem mudar.
É por isso que o acompanhamento oftalmológico continua sendo necessário mesmo quando a lente parece perfeita para o paciente.
As lentes RGP corneanas servem apenas para ceratocone inicial ou moderado?
Não.
Embora existam situações em que outros tipos de lentes sejam mais adequados, pacientes com córneas bastante irregulares e até ceratocones avançados podem apresentar excelente visão, conforto e saúde ocular com lentes RGP corneanas bem adaptadas.
O estágio do ceratocone, isoladamente, não determina que o paciente precise necessariamente migrar para uma lente maior, como uma córneo-escleral ou escleral.
A decisão depende principalmente do comportamento da lente naquele olho.
Quando a lente corneana não oferece uma relação adequada com a córnea, não apresenta estabilidade suficiente, não proporciona a visão desejada ou não é bem tolerada após um verdadeiro processo de adaptação, outras modalidades podem ser consideradas.
Quais cuidados são importantes no uso diário?
Alguns cuidados ajudam a manter o uso das lentes seguro:
- lavar e secar bem as mãos antes de manipular as lentes;
- utilizar soluções adequadas para limpeza e desinfecção;
- respeitar o tempo de uso orientado pelo oftalmologista;
- não utilizar água da torneira para higienizar as lentes;
- fazer acompanhamento periódico;
- substituir as lentes quando houver indicação.
Em relação ao sono, não se deve dormir com lentes de contato por conta própria. Alguns materiais, modelos e regimes de uso podem receber orientações específicas do oftalmologista, mas isso deve ser definido individualmente.
Dor, vermelhidão importante, secreção ou piora da visão devem levar à retirada da lente e avaliação oftalmológica.
As lentes RGP tratam o ceratocone?
Não.
As lentes RGP têm como principal objetivo reabilitar a visão. Elas não devem ser indicadas com a promessa de impedir a progressão da doença.
É importante separar duas questões:
- Como proporcionar a melhor qualidade visual? As lentes de contato podem ter um papel fundamental.
- O ceratocone está estável ou apresenta risco de progressão? Isso é avaliado pelo acompanhamento oftalmológico e por exames seriados. Quando existe indicação, medidas como o crosslinking podem ser consideradas para tentar controlar a progressão.
Um paciente pode, portanto, realizar crosslinking e continuar utilizando sua lente RGP para obter sua melhor visão.
Considerações finais
As lentes RGP corneanas continuam sendo uma das principais ferramentas para a reabilitação visual no ceratocone e podem proporcionar resultados excelentes em diferentes estágios da doença.
Mas uma adaptação bem-sucedida vai muito além de colocar uma lente no olho e conseguir uma boa visão.
É preciso avaliar como aquela lente se relaciona com a córnea, como se movimenta, como interage com as pálpebras e com a superfície ocular e, principalmente, como o olho permanece ao longo do uso.
O desconforto de um primeiro teste não significa que o paciente não conseguirá utilizar uma lente rígida. Da mesma forma, uma lente aparentemente muito confortável não é necessariamente a melhor opção apenas por causa do conforto inicial.
Cada olho precisa ser avaliado individualmente.
A melhor lente é aquela que consegue reunir qualidade visual, conforto e saúde ocular ao longo do tempo.